EMPODERAMENTO E REPRESENTATIVIDADE NA ESCRITA

a estética negra no âmbito poético

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Quando comecei a escrever, lá pelos meus 13 anos, eu não fazia ideia do peso que a poesia exerceria sobre minha vida. Eu escrevia sobre o que eu sentia, geralmente sobre coisas muito banais da pré-adolescência. Apesar de banais, nada do que eu escrevia naquela época, me representava, de fato.

Acontece que todas as referências literárias e poéticas que eu tinha romantizavam excessivamente tudo a minha volta. Principalmente o amor e os padrões estéticos que a sociedade usa para violentar, acima de tudo, a mulher negra. E eu só me dei conta disso após os meus 17 anos, enquanto crescia, pois o tempo foi passando e as referências que eu tinha ainda não me representavam.

Então eu me tornei uma mulher, negra, que sabia fazer poesia, mas que não sabia escrever poemas que representavam ela mesma. Eu não sabia contar, através da minha própria escrita, minha vivência a respeito de experiências que me deixaram marcas a vida inteira. E ainda não sei, estou aprendendo. Por esse motivo é de extrema importância falar sobre o protagonismo que nós, escritores negros (a), devemos aprender a exercer em nossa escrita. Principalmente, esteticamente. Precisamos valorizar nossa estética.

A nossa imagem e representação na poesia, e de modo geral, na literatura, dentro da bolha da branquitude, é majoritariamente sobre as dores do negro em diáspora. Somos sempre os que sofrem e os que morrem. Sem falar na constante sexualização à que a mulher negra é sempre submetida. Escritores e escritoras negros (a) têm tanta carga pesada para descarregar em seus escritos, que muitas vezes, o nosso próprio posicionamento na escrita tende a ser o mesmo. O que é mais que compreensível, temos todo o direito de sangrar nossas dores em nossa poesia.

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Mas temos também que aprender a reconhecer em nós mesmos boas histórias para contar. Histórias que inspirem, que nos coloque no topo, que faça amor com nossa luta e que jogue nossa autoestima para o alto. Histórias que explorem nossas experiências em espaços de privilegio e que mostrem que nossa existência vai além do sofrimento que sempre nos é atribuído. Não estamos aqui apenas sofrendo e morrendo, estamos aqui resistindo. Cada parte de nós.

Não podemos nos deixar ser entorpecidos pelo sofrimento. Temos raízes que nos fortalecem e uma autoestima que se renova a cada vez que nos reconhecemos em nossa cultura, que também resiste. Certa vez um amigo me disse que precisamos invadir os espaços. E é invadindo esses espaços que foram reservados a uma escrita que historicamente nos subjuga e escrevendo sobre essas experiências, que a estética negra no âmbito da poesia se transforma.

É claro que isso exige certo esforço, assim como todo processo de crescimento e empoderamento. Como disse, eu ainda estou aprendendo. Mas ter esse tipo de reflexão é o primeiro passo para ampliar nossa percepção. A partir disso, pequenos exercícios, como tentar diariamente não reprimir nossos traços de negritude, expressa-los em nossa escrita e estar atentos a articulação de processos que acontecem de maneira clara, porém sutis e que se direcionam a nossa subjetividade, nos encorajarão nessa caminhada.

É também essencial, estarmos sempre buscando e nos cercando de novas referências que venha dos nossos e que dialogue com nossas experiências, para que possamos produzir e absorver conhecimento, valorizando as expressões dos que vivenciam essa luta junto conosco. Cabe a nós, que resistimos através da escrita, articular meios que permita sermos os protagonistas dela, e acima de tudo, da nossa própria historia.

Orgulhe-se de quem você é, de suas raízes, de sua poesia e afine a ponta do lápis para que nossa voz ganhe força. Seremos os escritores que não tivemos a oportunidade de ler ao longo de nossas vidas A poesia corre no sangue da resistência.  

Leila Rute.

 

 

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